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The Idle Parent



A Sílvia, Mulher a 1000/h, deu-me a oportunidade de poder conhecer o resumo do livro “ The Idle Parent”, de Tom Hodgkinson e as suas ideias de como obter uma vida feliz. Concordo com algumas delas mas outras não penso serem as adequadas ao desenvolvimento de uma criança, é essencialmente neste ponto, a criança, que as nossas ideias divergem. Não são pais preguiçosos que educam crianças mais felizes, porque educar é sempre um trabalho árduo, mas sim pais menos inseridos nesta sociedade de consumo, pais mais preocupados com o futuro, com a individualidade, com a personalidade dos seus filhos.
Partindo do principio que nada é mais importante do que a família e, no nosso dia a dia, esquecemo-nos e colocamos muitas vezes outras coisas em primeiro lugar que, se discorrermos correctamente não estariam no pódio, exemplo disso são as tarefas caseiras, que podem esperar, que não se azedam se não forem de imediato consumadas. No entanto o casamento, a vida familiar pode azedar, pode desmoronar se não lhe dermos a atenção devida. Mulheres o ambiente familiar torna-se insuportável por nossa culpa. Não sabemos não só incentivar os maridos à colaboração nas nossas tarefas como ainda as colocamos num pedestal e esquecemos tudo o que é realmente importante como continuar a dar atenção ao nosso companheiro e acompanhar os nossos filhos, dando a todos o apoio que eles precisam e, em contrapartida receber o mesmo apoio e amor que dedicamos. Assim não haverá stress, problema que consiga vencer a nossa união. Porque será que nós durante as férias nos sentimos mais felizes, mais predispostos para o amor? Porque há mais tempo, porque não há obrigatoriedade para nada. As horas deixam de existir.
Ainda no meu último post deixei esta ideia no ar quando falei da pré-história, lembram-se? Afinal trabalhamos tanto para quê? Será que tudo o que compramos nos faz falta? Para seremos felizes precisamos dessas inutilidades todas? Roupa, tanta roupa, para quê? Afinal nas férias andamos com uns trapinhos e sentimo-nos no céu, não é? Consumimos demais e ninguém tem dúvidas disso. Hoje em dia há produtos para tudo e, para que servem? Simplesmente para nos obrigarem a consumir e, acreditem, os poucos produtos que havia antigamente eram suficientes. Ainda hoje, apesar de tanta oferta ainda é com as mezinhas que resolvemos os problemas. Como tiramos esferográfica de uma peça de roupa? Com leite a ferver? Pois é. Criaram-nos hábitos desnecessários à nossa sobrevivência e que em nada contribuem para a nossa felicidade, pelo contrário, obrigam-nos a arrebentarmo-nos a trabalhar e, mesmo assim, o dinheiro continua a não chegar. Essas horas que trabalhamos a quem as roubamos? Aos filhos. Eles não seriam mais felizes se em vez de irem para a creche ficasse com a mãe? Ela teria muito mais tempo para lhe transmitir os seus valores, a sua educação e a criança para a aprender. Nada substitui os pais e mais tarde, normalmente na adolescência, isso acaba por vir ao de cima. Quanto mais tarde nos tivermos que separar dos nossos filhos melhor. A educação hoje nos meios escolares não existe, há receio de educar e ser mal interpretado pelos pais ou ainda de educar e ter que acarretar com algum processo. Não concordo minimamente com a ideia que não se poder castigar, que o castigo é prejudicial. E o resultado desta educação está na subida da criminalidade e na descida da idade dos criminosos. Eles, professores e governantes, dizem que a educação tem que ser dada pelos pais. Eu pergunto quantas horas as crianças estão hoje com os pais? Porquê? Porque os pais têm que trabalhar e quando chegam a casa estão tão cansados que o que querem é descanso mas, muitas vezes, nem todos ganham para ter empregada, ainda têm as ditas tarefas caseiras para fazerem. Quantas horas estão na escola? Quase todo o dia. Conseguiremos nós num fim de semana colmatar a nossa ausência semanal? Não. Impossível. Isto tudo para dizer que a nossa presença é essencial no desenvolvimento dos nossos filhos. Que os nossos filhos sentem a nossa ausência e quando fosse possível, quando há um pai presente, a mãe devia sempre poder acompanhar os filhos. Resumindo: Quanto mais os acompanharmos melhor filhos teremos e menos problemas futuros. Isto levar-nos-á a concordar que ter uma vida muito ocupada, onde não há tempos livres, onde a ociosidade não tem lugar, ser uma mãe trabalhadora, um pai ausente em nada contribuirá para uma vida feliz quer da criança quer dos progenitores. O consumismo, a aquisição de bens supérfluos, contribuirá apenas para o nosso stress, há que trabalhar mais, há que produzir mais, não para a nossa felicidade.
O autor refere ainda que não devemos estar dependentes do emprego, o que concordo plenamente e, nos nossos dias, quando há tantas empresas a entrarem em falência, depender do emprego pode de repente conduzir-nos a um beco sem saída. Não depender do emprego significa não só uma redução do consumo como ainda à produção dos nossos bens essenciais. Saber fazer várias coisas, ter capacidade de produzir em vários ramos, ter perspectivas de mudança, faz de nós seres menos preocupados, mais abertos e por consequência mais felizes.
Quanto à solidão a que se refere ao autor. Não concordo que se deva deixar um filho sozinho. A solidão marca. Apesar de concordar que a solidão gera criatividade e auto-suficiência, gera também revolta. Estou a falar agora na primeira pessoa e digo que não compensa. O facto de a criança que vive só se ter que tornar adulta, ter que aprender a viver, a defender-se muito jovem, não é positivo porque ela recordará sempre a ausência dos pais e não que foi essa ausência que lhe deu a oportunidade de ela desenvolver a sua criatividade, de conseguir melhor que ninguém ser auto-suficiente. Ser criança faz falta, uma criança não deve ter responsabilidades, uma criança só tem-nas. Uma criança precisa de brincar, uma criança só não brinca, começa muito cedo a querer aprender tarefas adultas. Uma criança precisa de sentir o amor e a atenção dos pais, uma criança só não a sente. Uma criança precisa de se sentir apoiada, uma criança só sente-se muitas vezes perdida. Hoje, que sou uma mulher, que consigo examinar o que me rodeia, a família de onde vim, agradeço terem-me deixado só, agradeço terem-me deixado criar-me, terem-me dado tantos momentos de silêncio, agradeço terem-me mostrado o que sentiam por mim, porque foi isso que me tornou na mulher que sou hoje. Não queria ser a cópia deles. Gosto do que fiz por mim mas, quer queira quer não a mágoa, a revolta estão cá. Revolta-me o acompanhamento que me deram, nenhum, o apoio que recebi, nenhum, o amor que senti, nenhum. Se calhar a virtude estaria se eles tivessem sabido estar presentes, tivessem sabido desenvolver a minha criatividade, auto-suficiência e auto-confiança. Essa seria a melhor opção e é possível. É possível um pai acompanhar um filho e arrancar-lhe a solução para os problemas diários em vez de lha dar.
Brinquedos caros não são significado de brinquedos bons, comprar o brinquedo que está na moda não demonstra que por isso amamos mais os nossos filhos ou que o mesmo é o mais apropriado para o seu desenvolvimento, ou, até, que tem em conta a sua segurança. Antigamente a criança desenvolvia o seu próprio brinquedo conseguindo, ao fazê-lo, quatro objectivos, ocupar o tempo utilmente, desenvolver as suas capacidades, utilizar objectos que iriam para o lixo, a maior parte das vezes, e, mais tarde, brincar com eles. A quantidade de brinquedos que uma criança tem hoje serve, apenas, para que se desinteresse facilmente pelos mesmos, para que não os valorize e, também, para que deturpem a realidade imaginando que a vida é fácil, que podemos ter o que quisermos. Quando os mesmos estão na moda levam, ainda, a uma colectividade de gostos, todos têm que ter o mesmo gosto, não cultivando a individualidade. Devemos ensinar às nossas crianças que todos somos diferentes e por isso não devemos nunca imitar ninguém. Assim, a criança nunca se sentirá excluída por não ter gostos, atitudes, características iguais aos outros. Sabe de antemão que cada ser é um ser, que cada ser tem que procurar o que lhe interessa e não deve seguir, nunca, a multidão. Hoje os pais esquecem-se um pouco de transmitir estas noções, começando eles mesmos a incutir o contrário, ainda os filhos são bebés. É a roupa, os brinquedos, o calçado, a alimentação que seguem padrões impostos pela publicidade. Este seguimento cego impede a criatividade, a individualidade do ser humano ao ponto de criar angústia e infelicidade. O mesmo acontece com as actividades extras curriculares a que as crianças são sujeitas. Inglês, dança, natação… Será que os pais se perguntam antes o que interessa aos seus filhos ou, pelo contrário, obrigam-nos a optar por uma actividade porque mais tarde dará lucro, porque todos optam por ela ou, ainda, porque com ela terão a criança mais uma hora ocupada por dia? Brincar é imprescindível para a criança. Enquanto o é ela tem que brincar, faz tanta falta ao seu desenvolvimento como o pão que lhe damos. As horas que passa na escola são suficientes para a aprendizagem, nessas horas deverá ser-lhe ensinado tudo o que ela necessita, após isso deverá, logo que chega a casa, ocupar-se dos deveres que traz, de preferência acompanhada, deixando sempre que sejam eles a resolve-los e só depois dar-lhe alguma explicação, se necessária, esta é a ajuda que se deve dar, não outra. Os explicadores devem ser evitados porque causam a preguiça mental e não desenvolvem o raciocínio. Se há dúvidas sobre alguma matéria, se os pais não sabem resolve-las, deve-se comprar manuais que estejam mais claros, que sejam simples e que consigam que a criança entenda a matéria. Além de se estar a economizar está-se a desenvolver as capacidades da criança. Ninguém quer ter um filho limitado, circunscrito, com um cérebro restringido pois, se assim é, porque lhe dão tudo feito? Não é assim que conseguirão a sua felicidade, muito menos alguém auto-suficiente, alguém que consiga resolver qualquer problema que se lhe apresente. O incentivo é essencial para o desenvolvimento da criança, para o desenvolvimento das suas capacidades, para o desenvolvimento da sua auto-estima. A resolução de um problema irá incentivar-nos para a resolução do próximo e, quando damos conta deixa de haver impossíveis para nós. O nosso cérebro necessita de prática, de actividade, para que não estagne ou até retroceda. Após os deveres estarem resolvidos, penso que primeiro estão sempre as obrigações, a criança deve aproveitar o tempo que lhe resta para brincar, sozinho ou com os amigos, para fazer o que lhe der mais prazer. Ensina-los muito cedo à leitura fará deles pessoas com os horizontes mais abertos. Não é por acaso que se diz que o livro é o nosso melhor amigo. É o livro que nos faz e nos ensina a sonhar, idealizar, a desenvolver, a conhecer novas ideias, outros mundos, outras sociedades, outras tradições. Um livro, ao contrário de uma play station ou de um jogo no computador, ensina-nos a comunicar, desenvolve as nossas capacidades linguísticas, o que permitirá uma inserção mais espontânea na sociedade a que todos pertencemos.
Não se deve nunca cair no extremo de isolar a criança que é o que autor veladamente acaba por propor quando diz ser a favor de aulas em casa. Ao retirar uma criança do convívio com outras desenvolver-se-ia nela a ausência da partilha, ausência do convívio, ausência de despiques, ausência de desafios na sua vida o que em nada contribuiria para o seu desenvolvimento nem para a sua formação. A criança deve muito cedo aprender que não é única, que vai ter que partilhar a sua vida com outras pessoas tendo, por conseguinte, que perder algumas liberdades que possam prejudicar os outros. Esta aprendizagem é essencial para a criação de um carácter de comunicação, de participação, de interesse pelas necessidades alheias. Também é verdade que a criança ao se inserir na escola perde muita da sua inocência, começa a temer o ridículo, deixa de ser tão franca, e pode até começar a esquecer a educação que lhe foi incutida. Ela lida com filhos de muita gente e, infelizmente, o mau é tido nesta sociedade como o caminho mais certo, o mau acabará por vencer os menos fortes e os menos incautos, isto acontece com os adultos que se deixam tantas vezes conduzir pelos outros, esquecendo os seus valores, esquecendo o seu querer. Há pessoas muito fortes, que conseguem liderar, pessoas essas que nem sempre seguem o caminho mais correcto e podem levar consigo multidões. Para que a criança continue a ser ela própria há que acompanhá-la, professores e pais, estar presente.
A tranquilidade do campo proporciona-nos uma vida serena, tranquila, silenciosa que dará origem a uma vida mais sã, a uma vida onde há um maior conhecimento da natureza, uma maior compreensão do mundo que nos rodeia. No campo o stress não tem cabimento, basta observar o que nos cerca para nos abraçar a calma. Uma criança que vive num ambiente destes será muito mais feliz do que uma que vive na cidade, onde para tudo tem que correr. No campo não há passadeiras, não há sinais, não há trânsito e o relógio não é protagonista. Aqui o protagonista é a natureza que nos proporciona tudo o que precisamos para uma vida feliz e sã. Cultivar, criar o que se come permite-nos evitar doenças provocadas pelos químicos, pelos produtos que a sociedade de consumo aplica para um desenvolvimento rápido que facilitará o lucro, não tendo em conta os malefícios dos mesmos na saúde do ser humano. Aqui todos serão felizes, todos esquecerão o supérfluo, todos esquecerão o consumo, todos serão imunes à publicidade, porque todos se sentirão entranhados por uma vida em liberdade, por uma vida onde a beleza tem lugar em cada olhar, onde cada segundo que passa nos traz o perfume da vida.

Brown Eyes

Comentários

Mulher a 1000/h disse…
Bem... tu não brincas! =) Adorei o facto de me teres respondido... e como te disse antes, adoro estas partilhas! De facto, em muito do que disseste eu concordo contigo e assino por baixo!
Sabes, quando me mudei para os Açores de malas e bagagens, com marido e filha, acabadinha de nascer, senti muita falta da dinâmica citadina, que implica, claro está, a vertente consumista da mesma! Mas agora, que já vai fazer um aninho que aqui estamos, cada vez sinto menos e menos saudades da cidade! De facto, ainda tenho uma parte da minha vida passada na cidade, mas em muito menor escala do que teria se ainda estivesse no Porto! E o que é que a falta de shoppings e lojinhas e afins implicou?! (...) quase nada, a não ser mais tempo ao ar-livre e uma imaginação para mudar as actividades e rotinas de vida! De facto, eu acho que liberdade DESACOMPANHADA a mais não é saudável para as crianças, mas liberdade "supervisionada" seria o ideal, que é o que eu tento praticar!
Em relação à mudança de hábitos para criar mais tempo para a família (marido e filhos)é óvio que tive que fazer os meus ajustes e ainda estou em adaptação... no decidir abdicar de uma carreira profissional em prol deles e o dilema de ainda acreditar nela! Mas isso dava aqui pano para mangas! ;)
Obrigada pela tua resposta e concerteza voltaremos a "falar" sobre estes tópicos! ;)

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