Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Fevereiro, 2010

Aguardando por ti

Somos insaciáveis, queremos porque queremos conhecer. Conhecer o desconhecido, conhecer o futuro. Perdemos tempo e dinheiro, perdemos a beleza da surpresa, a beleza do mistério. Ele fascina-nos mas, quando se fala de velhice, tudo começa a ficar turvo e não há enigma que alicie. Ela chegará, passo a passo, devagarinho, mudando a cor do cabelo, a força dos membros, o poder da vista, a dureza dos ossos. Olharei para ela, de frente, cara a cara e sorrirei. Ela é minha e como minha amá-la-ei. Amá-la-ei  e respeitá-la-ei como, sempre, me amei e respeitei. Medo? De quê? Já caminhámos tanto, já desviámos tantas pedras juntas, já transpusemos tantas vedações, nunca desistimos. Vamos fazê-lo agora? Com esta idade? Não. Vou enfrentá-la. Enfrentá-la com a mesma força que enfrentei a primeira queda, o nascimento do primeiro dente, o primeiro dia de aulas ou, até, o primeiro beijo. A mudança nunca me assustou. Vou agora renunciar a tudo? Deixar-me vencer por uma realidade que se tem vindo a anunciar…

Lembranças

Esta minha vida como bloguista tem-me trazido bons momentos e excelentes conhecimentos.  Escrever tem sido, desde menina, um prazer para mim. Aprendi a desenhar as letras sozinha, imitando as letras dos livros que deambulavam lá em casa. Como já tive ocasião de dizer, em alguns blogues, nasci em África, o continente de sonho e mistério, onde se entrava, com seis anos, para a pré-primária, para se aprender a ler e escrever e só depois se passava para a primeira classe.  Eu fui transferida, passado uns dias, para a primeira classe porque já sabia ler e escrever. Os cozinheiros que passavam lá por casa, minhas únicas companhias diárias, muito me ensinaram: desde pôr a mesa até a ler e escrever. Aqueles mesmos que me tiravam o prato da massa da frente, ao mínimo descuido dos meus progenitores, porque eu a detestava.  Tenho muito que agradecer ao país que me viu nascer. Foi ele que me fez crescer, que me fez amar o ser humano, tal como ele é, com defeitos e qualidades, que me deu força par…

O Fim do Silêncio

Um consentimento deve ser dado de forma livre e esclarecida. A autonomia, objectiva e subjectiva, pode ser prejudicada pela ignorância, medo, manipulações, sofrimento e qualquer coação que influencie a decisão pessoal. Por isso, um consentimento, só tem validade moral se a pessoa se aperceber dos riscos, limitações e benefícios que o mesmo traz. Deve, por conseguinte, ser fornecida informação ajustada para reflectir, ponderar, discernir e decidir sem indevidas pressões. Lembro-me de, há quinze anos, termos, por imposição do Decreto-Lei 244/94, de fazer o registo de não dador caso não quiséssemos doar os nossos órgãos. Registo de "Não Dador", porque não registo de "Dador"? Pressupõe-se, nesta legislação, que todos os portugueses querem ser dadores, grave porque, num regime democrático,  o cidadão diz o que quer, não o que não quer. Quem desconhece a lei, muita gente, é, à partida, obrigado a ser dador sem saber que o é. A doação presumida viola o princípio da autonom…

A Paixão de Maria

Maria, 89 anos, natural de Penedones, de onde nunca saiu. Não conhecia nada mais do que aquela aldeia e a Barragem de Pisões. Era a décima e última filha do tio Manuel Fonseca e da ti Maria das Ovelhas. Maria foi bafejada pela sorte, era linda, uns olhos profundos, uma pele branca, cabelos negros, ondulados, 1,70 m, um corpo ondulante e um coração de ouro. Maria teve vários pretendentes, até o sobrinho do prior lhe fez a corte mas, Maria não queria partir, não queria sair daquele paraíso que a tinha visto nascer. Não conseguiria viver sem olhar para aquela paisagem inóspita, de uma beleza agreste. Ela pertencia ali e ali iria morrer. Viu partir todas as suas amigas de infância, os seus irmãos e irmãs e ela ficou. Ficou  a tratar das terras, dos animais e dos seus progenitores. Vivia numa casa de pedra, que já pertencia há séculos à família. No rés-do-chão era a adega e a corte dos animais. Havia uma escada exterior, em pedra, que desembocava na cozinha, uma varanda que corria toda a fa…