quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

Carências à Superfície


O Natal, 25 de Dezembro, data que não corresponde ao nascimento do menino Jesus, provavelmente terá nascido em fins de Setembro, altura da Festa dos Tabernáculos e terá sido concebido em fins de Dezembro. Nesse dia celebrava-se o retorno do sol, o primeiro dia no qual os antigos podiam notar claramente que os dias estavam a tornar-se maiores e, que a luz do sol estava retornando. Como ninguém sabe o dia de nascimento de Jesus e, como a Igreja queria substituir o festival pagão com um dia santo, escolheu esse dia para festejar o nascimento do menino.
Para mim, mulher adulta, com uma posição ateísta, total ausência de crença em divindades, espiritualista, aceitando algumas ideias imateriais como a alma humana ou a reencarnação, o Natal, presentemente, é um aproveitamento das carências afectivas das pessoas, e, não passa disso.
Já foi uma época em que a família se reunia e confraternizava mas, há muitos anos, o seu significado reformou-se. Reformou-se o significado do Natal e o da família.
Tendo o casamento deixado de ser encarado como a modalidade exclusiva de relacionamento, como uma parceria para a vida inteira, sendo questionados, diariamente, os princípios de companheirismo, intimidade e amor, entre os cônjuges, tendo diminuído o contacto entre pais e filhos a um nível extremo, não tendo os jovens directrizes de conduta, estando os seus modelos identificatórios distantes, sendo o individualismo e a competição os espíritos apoiados por esta sociedade capitalista, que acabou com aspectos importantes da vida em sociedade como o companheirismo, solidariedade, participação, envolvimento e união e, ainda, com a família. Família que, hoje, com tantas mutações, deixou de se conhecer, na sua totalidade.
Impossível colocar à mesa, na consoada, aquela família que, há uns anos atrás, se juntava para confraternizar e festejar a alegria do nascimento do menino: os avós morreram, os netos não têm os pais já unidos, os pais têm novos pares e novas famílias, os tios têm outros interesses e, assim, a família perdeu-se.
Reformou-se a família e, com esta remodelação, o Natal perdeu a beleza, a naturalidade, a pureza, a genuidade, tendo sido contaminado pela sociedade de consumo, insatisfeita, a mesma que destruiu a família.
Estando a família desagregada o individuo começa a ser consumido por carências afectivas, carências essas criadas aproveitadas pela sociedade, em que ele se quer inserir.
O indivíduo, transformado em objecto, nu de autonomia, com direitos flexíveis, inserido num meio em constante metamorfose, necessitando estar actualizado a cada segundo, foi perdendo a sua auto-estima estando, vulneravelmente, colocado à superfície de um mundo que, ao mínimo descuido, o abafa, o afunda e o sepulta.
Vulnerável, insatisfeito, sentindo uma necessidade enorme de ser amado e aceite pela sociedade, segue impensadamente as directrizes que lhe são dadas. Perdeu a capacidade de cogitar, de avaliar as suas necessidades, de saber onde começa a mentira e onde acaba a verdade. Afinal ele reina como um soberano solitário.
O mercado, na sociedade capitalista, criou a publicidade que, tem como função, criar necessidades e mais necessidades, impossíveis de satisfazer, já que a mutação é tão veloz que quando se satisfaz uma já há outras criadas. Estas necessidades, grande parte supérfluas, têm como função, aparente, a de provocar satisfação, de preencher o vazio que o indivíduo deixou que ela lhe formasse, criando-lhe a ilusão de auto-estima e felicidade, baseada na “moda”.
Ele segue a “moda” na leitura, nos bens que adquire, nos passatempos que escolhe, nos hobbies, na alimentação, na moradia em que vive, no carro que conduz, no programa que vê, no canal de TV que escolhe, na roupa que veste e, nas prendas que dá. Tudo isto faz dele um FASHION. Um FASHION VICTIMIS, não passa disso. Mata-se a trabalhar, perde momentos no seio da família, perde a saúde, entra em stress para ser um FASHION, para conseguir um bem-estar, momentâneo, baseado em bens.
Esta mesma sociedade trocou-lhe, inclusive, o símbolo do Natal, de menino, passou a velho de barbas, Pai Natal, nascido em 1821, unificação de Pai Natal e S. Nicolau, num conto, para crianças, de Clément Clark e, assim, foi sendo criado este velho. Em 1931, a Coca-Cola dá-lhe o aspecto actual, roubando-nos, definitivamente, a nossa figura natalícia, o menino Jesus.
Esta figura, comercial, tem um impacto económico enorme, nesta época, e têm vindo a ser desenvolvidas técnicas, refinadíssimas, que levam as pessoas a acreditar que é necessário comprar, para consumir ou para presentear, atingindo-as nas suas fraquezas humanas, desestabilizando-as e forçando-as a adquirir objectos que nada acrescentarão ao seu engrandecimento pessoal, social, cultural e muito menos como cidadão participante de uma comunidade, um grupo ou uma sociedade.
O bom senso é, com toda a certeza, a melhor protecção para estas armadilhas do marketing, da publicidade. Ninguém é banido de um grupo, de uma sociedade com valores por não ter, por não dar, por não entrar na roda do consumo. Se o for, é porque aquela sociedade ou grupo era hipócrita, desleal, fingido, fútil e não tinha, como alicerce, do ser humano, os seus valores.
A ideia central, desta sociedade, é vender, não havendo qualquer preocupação nem com a qualidade nem com as consequências que o produto possa ocasionar. Há um esvazionamento de conteúdos e uma utopia de felicidade plena, num “Paraíso de Consumo” qualquer, Shopping Center, onde a estética é procurada a todo o custo.
Estando, eu, atenta às minhas necessidades reais, tendo definido claramente as minhas prioridades, tendo os parâmetros estabelecidos, sabendo o que significa para mim qualidade de vida e o que é supérfluo, o que não agregará valores à minha vida, nem à vida da minha família, tendo a minha meta traçada, sem brechas para que ondas consumistas a destruam digo, com toda a convicção:
Ninguém, nem nada, será capaz de me transformar em máquina de consumir nem, tão pouco, me levará a pensar que a minha felicidade está em ter. A minha vida baseia-se no ser e, é ele, o ser, o único capaz de me fazer feliz. Utopias aceito uma: paz mundial.
Assim sendo, o Natal é, apenas, mais uma maneira de obter lucro, aproveitar as fragilidades do ser humano, presenteando-o com quimeras.

Para Fábrica de Letras.Tema do mês: Natal.

Brown Eyes

O meu Pai Natal


O Brown, que se vestiu, desde que nasceu, no princípio do mês de Agosto, de Pai Natal, tendo-me dado, ao longo destes meses,  toda a felicidade que dele dependia.

Para Fábrica de Letras. Tema do mês: O Natal

Brown Eyes

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

A percentagem da consciência


Esta semana tenho andado revoltada, indignada, irritada, enraivecida, enfurecida. Ando completamente possessa. Culpado: Vítor Constâncio, governador do Banco de Portugal, que aufere anualmente 250 mil euros, trinta e nove vezes vírgula seis o que aufere uma pessoa que ganha o ordenado mínimo nacional, índice um, seis mil e trezentos euros anuais, contando com subsidio de ferias e natal, e, duas virgula oito vezes o que aufere alguém com o índice cento e quinze, da função pública, oitenta e oito novecentos e nove vírgula doze cêntimos, sendo, este senhor, o terceiro mais bem pago do mundo.
Este senhor diz que a função pública não pode ser aumentada mais do que um por cento, fazendo as contas vamos ter:
Índice 1 - 450,00 euros x 1% = 454,50 euros/mês
Índice 115- 6350,68 euros x 1% = 6414,18 euros /mês
Vítor Constâncio - 17857,14 euros x 1% = 18035,71 euros/mês
O problema da percentagem é este: Quem ganha uma miséria tem, uma miséria de aumento, quem ganha uma fortuna tem, uma fortuna de aumento.
Sr. VC aconselhe o Governo, tendo em conta a crise que atravessamos:
Acabar com os índices superiores ao setenta: 4033,54 euros/mês.
Que trabalho, pode alguém prestar para merecer mais nove vezes o salário mínimo, ou, tendo em conta o último índice, 115, catorze vezes mais que o salário mínimo nacional?
Sr. VC aconselhe a descida do seu salário. O Sr., está convicto, apelo aqui para o seu bom senso, que merece mais 39, 6 do que alguém que ganha o ordenado mínimo? Sua mais, tem mais responsabilidades, é mais perspicaz, os seus deveres e obrigações como funcionário são superiores aos deles? 39, 6 vezes?
Não precisamos de lembrar o que aconteceu com três bancos nacionais, pois não? Quanto Portugal perdeu consigo? Onde estaria o Sr. quando tudo isso se deu? No Dubai ? Imagine um funcionário público qualquer, um que aufere o ordenado mínimo, agir como o Sr. ,onde estaria? Na rua. Debaixo de uma ponte. Não seria? E onde está o Sr.? Onde estava.
Sr. VC um pouquinho de vergonha ficava-lhe bem. Sabe que lhe digo? Se eu tivesse exercido o meu cargo como o Sr, o fez , tinha-me despedido, depois, fazia um buraco e enterrava-me, isto ganhando o que eu ganho, ganhando o que o Sr. ganha tinha-me morto em plena praça pública para, exemplificar, o que merecem os incompetentes.
Sr. VC está a ver a diferença abismal que existe entre nós os dois? Vergonha é o que lhe falta, à primeira vista mas, não vou mencionar as suas outras carências senão….passava aqui a noite. Dinheiro é a única coisa que abunda em si. Compreendeu a mensagem? Espero que sim e por favor desapareça, esqueça palavras como competitividade, défice, orçamento, receita, despesa, impostos,….O Sr. realmente sabe o que diz? Quem é o Sr. para recomendar seja o que for? Sabe o que significa o zero à esquerda de um número? Sabe? É esse o seu valor. Agora compare o seu valor com o seu ordenado.
O Sr., diga-me ao ouvido, acha que alguém ainda crê em si?
Pois, claro que não.
O dinheiro obriga a cada figura! Bem 250000,00 euros sempre são 250000,00 euros! Que jeito fazia esse dinheiro ao pessoal que anda aí a passar fome! Não era? E fartos de trabalhar. Já viu, a trabalharem todos os meses e a passarem fome? Seu hipócrita. Que tal viver o Sr. com esses 450.00 euros, o ordenado mínimo nacional? Sabia que os vencimentos dos  funcionários públicos, aqueles que trabalham no duro, é baixo? Depois temos os eleitos, eleitos pelos...O Sr. sabe por quem. Esses são os tais que têm vencimentos superiores ao índice setenta. Conseguia? Se calhar não davam nem para pagar a luz que o Sr. gasta!
Consciência, noção do ridículo e escrúpulos é mesmo apanágio de pobres e trabalhadores. O Sr. não sabe o significado destas palavras. Já imaginou vir um vendaval e levar-lhe tudo? E o Sr. cair a pique? Chegar ao solo esmagado? É no solo que se dá valor à vida e ao ser humano. Que faria?
Brown Eyes

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

O Anjo da Morte


Vivo enroscada, de dia e de noite, entre o preto e o branco e, hoje, estou apática, indiferente, sem vontade de contestar a este desafio. Há, quase, um mês que venho adiando este momento. Tu és o único que sabes porquê, és o único que consegue ler a minha mente, o único que sabe a saudade que me assola, a revolta que me desgasta, o desespero que me domina.
O preto, que, para mim, simbolizava o mistério, a fantasia, a dignidade, a confiança, a sofisticação e o luxo, hoje, simboliza o terror, o pesar, a morte e o luto.
O branco, que, para mim, era o símbolo, da paz, da calma, da pureza, da limpeza, do relaxamento, da verdade, da sinceridade, da esperança e da inocência, hoje, simboliza, apenas, o frio, o teu arrefecimento, a tua destruição.
Não estava prevenida, ninguém estaria, para a tua partida, depois de um dia passado contigo, vendo-te rir, brincar, falar e andar. Eram os teus primeiros passos, trémulos, ainda, mas, tão meticulosos. Ficava horas a ver-te agir e interagir, com os brinquedos, com os animais, connosco ou, até, com a comida.
Lembras-te do sorrisinho que fazias quando saboreavas um alimento com paladar desconhecido? Aquele sorrisinho hesitante e acanhado? Não consigo esquecê-lo. Como não consigo esquecer todos os momentos em que estiveste connosco, as fotos que te tirámos, a admiração que sentíamos quando olhávamos para ti, a alegria estampada no teu rosto quando te davam um volante, as recordações que me fazias reviver.
Não consigo esquecer aquele sábado, o último. Estavas diferente, mais sereno, mais tranquilo, mais macio, com um ar celestial. Tinhas um ar celestial, um ar tão celestial que me aterrou.
Domingo, quando aquela campainha soou, às sete da manhã, foste tu que me vieste ao pensamento. Desci, já com o horror estampado no rosto, sabia que, lá em baixo, encontraria os teus pais desconsolados, desamparados e desprotegidos.
Tu eras o nosso menino, o menino que todos queriam saber onde e como estava. E agora? Agora nada sei de ti, apenas sei que, continuas no meu pensamento, tão vivo como há um ano atrás. Apenas sei que me fizeste feliz, que continuo a ver-te rir, correr e brincar. Apenas sei que continuo a amaldiçoar aquele anjo, vestido de branco, com um coração negro, tão negro como o carvão, como a morte que transportava, que te beijou, que te cativou, durante o sono, naquela maldita noite, tão fria que te congelou.
Sabias que este tema, preto e branco, me levaria a falar de ti, de ti que iluminaste a nossa vida, enquanto viveste, que foste a nossa luz, a nossa pomba da paz, a nossa esperança. Sabes, também, que o preto e branco nunca mais voltarão a ser os mesmos, que as nossas vidas, sem ti, nunca mais terão o vermelho da tua alegria, a vida da tua felicidade, o poder da tua tenra idade.
Brown Eyes
Elaborado para Fábrica das Letras, "Preto e Branco"

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Um pouco de mim, de ti, de nós


A minha querida Mulher a 1000/h, presenteou-me, mais uma vez, com um selinho. Ela sabe que não sou muito adepta destes prémios, prefiro as visitas dela ao meu blog e os seus comentários inteligentes mas, este selo é muito especial, foi-me oferecido no seu dia de anos. Assim sendo resolvi aceita-lo e, claro, distribuí-lo:
1- Para ti Sílvia, não podia deixar de ser, mereces, isto e muito mais. Preenches, sabiamente, muitos dos meus momentos;
2- R.I.P.per, apesar de saber que não gostas destes troféus, não podia deixar de premiar o teu talento;
3- Ginger, mais um talento, com muito valor, que encontrei, neste mundo;
4- Bela, és uma menina com um coração enorme, atenta, meiga e inteligente;
5- Mel, conheci-te há pouco tempo mas, tenho um grande carinho por ti e, claro, adoro ler o que escreves, incluindo os teus contos, agora colocados em cantinho especial.
6- PI, a minha primeira comentadora feminina, a pessoa que me ofereceu o primeiro selo, a minha primeira ligação com este mundo. Como poderia esquecer-me de ti?
7- HannaH, apesar de mais distante, não te esquecemos. Aqui está a prova;
8- Anne, gosto do teu blog, da maneira como escreves, dos assuntos que abordas;
Sílvia cinco não chegavam, eram muito poucos. Depois da distribuição, vamos lá completar as frases:
a) Eu já...acredito na vida;
b) Eu nunca...imaginei que houvesse tanta maldade;
c) Eu sei...que é possível ser-se feliz. O nada que sempre falta chegará um dia;
d) Eu quero... a paz. Que os homens voltem a ser humanos;
e) Eu sonho...quebrar todas as barreiras que não me permitam viver a rir.
Agora é só repetirem estes trâmites nos vossos blogs.
Brown Eyes

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

A Vida na Cor






Brown Eyes


Elaborado para Fábrica das Letras, "Preto e Branco"

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Surpreendida com rosas


Um dia, há uns anos largos, anos cinzentos, daqueles em que tudo se encrespa, entra pelo meu gabinete uma florista, que eu conhecia de vista, com um ramo enorme de rosas vermelhas e uma caixa com um laçarote dourado.
Ela: Mary Brown? São para si.
Eu: Sim, mas,… deve, deve haver aí um engano. Não faço anos hoje, nem conheço ninguém capaz de me fazer tal surpresa.
Ela: Não há não. Ligaram-me, deram-me o seu nome, local de trabalho, pediram-me que lhe trouxesse este ramos de flores, que lhe comprasse esta prenda e que não dissesse quem lhe fazia esta surpresa. Aliás, acrescentaram, ainda, que a Mary nem o conhece mas, ele conhece-a a si.
Eu: O quê? Está a brincar comigo, não? Não, não posso aceitar.
Fiquei tão surpreendida que nem sabia como agir, aliás, eu estava a gaguejar e, acreditem, não sou gaga.
Ela: Como?
Eu: Não posso aceitar. Não gosto muito de ser presenteada, prefiro presentear, muito menos por alguém que não conheço. Imagine!  Era só o que me faltava. Obrigada mas não vou mesmo aceitar.
Ela: Mary que vou eu fazer à prenda? Já está paga. Aceite. Já imaginou quantas mulheres gostariam de ter uma surpresa destas?
Entretanto só ouço a voz dos meus colegas, em coro: Aceita.
Bem, aquilo não me estava a agradar nada mas, que era uma cena digna de um filme de amor, de um amor louco, era. Mas que amor era aquele que eu nem conhecia o sujeito?
Será que ainda ia ter problemas por causa daquela surpresa? Não tinha opção. À minha frente tinha uma florista, não tinha o sujeito da dita surpresa.
Dentro da caixa havia um perfume, Tresor, da Lancôme, e um livro com frases  de amor, Palavras de Amor e Carinho, que ainda guardo mas, que nunca li, com uma dedicatória: Para ti que iluminas os meus dias.
Aceitei, nunca forcei a florista a dar-me o nome da pessoa, não queria mesmo saber quem era, fiquei à espera do próximo episódio, meio aterrorizada, confesso, cenas daquelas só mesmo de um louco, pensava eu, nunca chegaram, felizmente. A pessoa não devia pretender mais do que fazer-me feliz, inesperadamente, fazer brilhar o sol em dias de nevoeiro. Nunca soube quem era o anónimo, que me proporcionou a surpresa mais louca da minha vida.  Continuo surpreendida e incrédula.
Brown Eyes

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

O Ninguém e Eu



Um dia, daqueles que queremos negar tudo e todos, resolvi escrever sobre ninguém (uma síntese total deste ser)  e como ninguém. Há alturas que tenho uma vontade férrea de ser igual a ninguém. Esse ninguém que é sempre inocente, esse ninguém que é cego surdo e mudo. Esse ninguém que tanta revolta e tanto ódio cria em mim. Tantas lutas que tenho travado com ninguém e contra ninguém!
"Não sou filho de ninguém e ninguém são meus pais. Ninguém é responsável por mim, eu não sou responsável por ninguém. Não esmago ninguém, ninguém é esmagado por mim. Não espero a ajuda de ninguém e é a ninguém que eu ajudo. Não me lembro de ninguém e ninguém é lembrado por mim. Não vivo para ninguém, ninguém vive para mim. Não governo ninguém, nem ninguém é governado por mim. Não me sacrifico por ninguém e ninguém se sacrifica por mim. Não ouço a recriminação de ninguém e ninguém é recriminado por mim. Não espero nada de ninguém, ninguém espera nada de mim. Não sou apoiado por ninguém e ninguém é apoiado por mim. Ninguém vive para mim nem eu vivo para ninguém. Não sei de ninguém, ninguém sabe de mim. Não trabalho para ninguém e ninguém trabalha para mim. Não vi ninguém e ninguém me viu. Não amo ninguém, ninguém é amado por mim. O meu futuro não é de ninguém e o de ninguém é o meu."
Ninguém assume totalmente ninguém. Assumem, apenas, a parte cómoda dele.
Porque hei-de eu insistir em ser alguém em território de ninguém? Seria tão feliz como ninguém, armada em alguém. 

Brown Eyes

domingo, 1 de Novembro de 2009

O Enredo dos Atalhos


Hoje parece que os atalhos deixaram de ter a definição de cruz. O velho ditado que nos dizia que, “quem se mete em atalhos mete-se em trabalhos”, não tem mais razão de ser. São mesmo os caminhos que nos brindam com dificuldades.
Há uns anos largos, na altura que me locomovia a pé, lembrei-me de ir passar um Domingo à praia. Estava a uns dez quilómetros mas, mesmo sem transportes, pus-me a caminho. O calor insuportável que me cobria o corpo de gotículas de transpiração, estava a destruir-me o desejo. Do meu lado direito, após ter andado uns quilómetros, ou terão sido apenas uns metros, não sei, aparecia o azul do mar, logo ali, a dois passos de mim. Havia um atalho entre a natureza queimada que esboçava um pulo até ao azul aguado. Azul que me envolvia a imaginação. Bem, era um atalho, atalho trabalho, e, a Mary Brown, nunca escolhia a facilidade, hesitou. Hesitava, ao mesmo tempo que se ia embrenhando, a medo, naquele caminho mal marcado. Quando me apercebi o atalho tinha desaparecido, estava rodeada de arbustos, queimados, pintados de negro pelo fogo, que me rasgavam a pele e me encarvoavam. Impossível já voltar atrás. Ao fim de algumas horas, tisnada, com as pernas dilaceradas pelas naifadas daquela lenha mal ardida, cheguei à praia. O azul do mar, depois daquela tormentosa caminhada, tornou-se negro, da cor do equívoco, do engano e da desilusão. Aquela adolescente com aparência fresca, límpida e jovial, passou a aparentar uma mendicante, acabada de fugir do manicómio das redondezas. O carvão cobri-a, escondendo-lhe a cor da pele e da vestimenta.
A partir desse dia nunca, mas nunca mais, quis ouvir falar de atalhos. Os únicos que tenho utilizado são mesmo os que coloco no ambiente do trabalho e os do teclado que, esses sim, são profícuos.
Se já não tinha dúvidas, a sabedoria popular não precisa de canudos nem de certificados para a considerarmos competente, fiquei, a partir daquele dia, com a certeza de que os caminhos, embora mais longos, iludidamente, dão-nos algumas garantias e segurança. Mas, como comecei por dizer, estas certezas, ganhas com a experiência, ao longo de anos e anos, por várias gerações, passaram a ser incertas e dúbias.
Os atalhos nunca nos levarão ao verdadeiro caminho, esta é uma verdade incontestável. Assim sendo, podemos viver uma vida desconhecendo a verdade, se utilizarmos, por sistema, atalhos, fáceis, simples e acessíveis para atingirmos objectivos. Como desculpa, para a sua utilização, acusamos o tempo de ser caro, perder tempo custa dinheiro e os atalhos encurtam-no. O sucesso, a estabilidade financeira, conduzem-nos ao esquecimento da via.
Hoje há quem viva de atalhos: atalhos para a justiça, atalhos nas finanças, atalhos  para a  instrução, atalhos para a educação, atalhos para a saúde, atalhos para a razão, atalhos para a verdade, atalhos para o raciocínio, atalhos para a aquisição, atalhos para a transacção, atalhos para a economia, atalhos, atalhos e mais atalhos. Não vou exemplifica-los, todos os conhecemos. Fazem notícia nos telejornais.
A qualidade da nossa vida futura depende, sem dúvida, do que fizermos hoje. Hoje lançamos os alicerces que nos sustentarão amanhã. Se hoje optamos por atalhos entraremos num labirinto sem fim e, amanhã, ainda andaremos às voltas. A motivação deve ser no sentido de nos demonstrar que vale a pena seguir valores, que vale a pena ser íntegro, que vale a pena ser honesto, que vale a pena trabalhar. Mas não é nesse sentido que nos motivam. Por interesses políticos, distribuem-nos falsas facilidades (por exemplo  os subsídios e as novas oportunidades) que, mais tarde, aferimos apenas terem servido para tapar o sol com a peneira.
Aqueles que ainda resistem aos atalhos sentem-se defraudados, roubados, desanimados, desiludidos e derrotados.
Ter um carácter longânime, de alguém que suporta as adversidades, que prossegue o seu caminho empenhando-se, apesar dos obstáculos, que continua a trabalhar arduamente, proporcionará algum benefício? Quando vemos o trapaceiro, o malandro, o mandrião, o indolente, o parasita, o inútil, a medrar impunemente, a ser aplaudido energicamente, a ser reconhecido publicamente? 
Sociedades que espezinham os valores, aplaudem a imperfeição, a incorrecção e as irregularidades, terão um final feliz? As regras têm vindo a multiplicarem-se mas, também, se têm multiplicado as evasões. Qual poderá ser o objectivo do seu surgimento se, no fim de contas, não se é responsabilizado por não as cumprirmos e, até se é premiado? Se são aqueles que esperamos que nos dêem o exemplo, os primeiros a fugir às obrigações?
Onde estará afinal a virtude? Nos atalhos ou nos caminhos?
Brown Eyes

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Saramago e as Pedras


Todo o ser humano tem liberdade de opinião e de expressão, art.º. 19º. da declaração universal dos direitos do Homem, assim sendo, todos temos direito a não sermos incomodados nem difamados por usufruirmos dele.
Saramago, escritor, autodidacta, recebeu o prémio Camões e o prémio Nobel da literatura, único português a recebe-lo, grande pensador, alguém com uma visão própria do que o rodeia, da realidade que o envolve, que não se restringe a reproduzir, criando, alguém “que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo, não tendo culpa se, de vez em quando lhe saem monstros”, como ele próprio refere, tem direito à sua opinião e a exprimi-la, como qualquer simples mortal. Ninguém tem dúvidas acerca da existência de monstros, todos sabemos que estes habitam nas catacumbas, lugar onde nem sempre estamos dispostos a descer.
Não posso emitir opiniões negativas sobre alguém porque tenho, na prateleira, lá de casa, uns livros dele, que nunca li mas, dos quais, não gosto da encadernação, sobre os quais alguém resolveu afirmar que são improfícuos. No entanto, os seus livros, são facilmente vendáveis.
Não posso emitir opiniões negativas sobre alguém só porque é octogenário, porque cria polémica, mexe com as mentes, critica o sistema democrático, que ninguém discute, porque afirma que temos um cérebro demasiado disciplinado, que pensa só o que é preciso pensar e que nos permitem pensar, que nos diz que se não conseguirmos viver inteiramente como pessoas, pelo menos, que não vivamos inteiramente como animais. Alguém que lembra que as palavras com facilidade mudam de opinião, como as pessoas, que a morte mata muito menos que o Homem, que se contam muitas histórias sobre Deus e a morte e, que, o sonho é tão real como o corpo que o sonha.
Não posso emitir opiniões negativas sobre alguém quando não sei, sequer, analisar se há veracidade nas suas afirmações. Quem já se preocupou em ler a Bíblia? Quem já se preocupou em analisar o poder e o império do Vaticano? Como pode então alguém duvidar que a verdade seja ofendida, todos os dias, por supostos representantes de Deus? Quem pode então duvidar que eles só tenham interesse no poder, não na salvação da nossa alma e sim no controle do nosso corpo? Como posso eu duvidar que Deus continue a descansar se permite que, em seu nome, se gastem milhões na construção de templos, qualquer lugar serve para se orar, enquanto morrem milhares de crianças? Como se pode duvidar que a bíblia seja um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana se nunca o lemos? Como se pode então duvidar de quem a lê perde a fé? Como se pode então acreditar que a verdade está naquele que diz, o teólogo, que a leitura de Saramago é ingénua, ideológica e manipuladora?
O conhecimento não é estanque, nem a verdade é inquestionável. Todo aquele que disser algo e conseguir prova-lo nunca poderá ser dado como louco. Lembrem-se de Galileu que defendeu o heliocentrismo numa época em que se acreditava no geocentrismo, cegamente.
Saramago é um vigilante que encontrou na palavra a arma, para lutar contra a injustiça, ignorância e poder. Alguém que procura a verdade através da análise, da observação da experiência vivida, modificando o conhecimento manipulado à nascença.
Já fui católica praticante. Andei algum tempo levada pela multidão até que um dia…um dia parei para pensar. Afinal que me adiantava pertencer a uma religião que eu reconhecia envolta em pecado, em egoísmo e em mentira?
Não querendo de maneira nenhuma encontrar uma verdade facilmente abalável, dediquei-me à leitura da bíblia. Li a bíblia utilizada pela religião católica, pelos testemunhas de Jeová e o Livro do Mórmon, uma das quatro obras padrão da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, igreja Mórmon, uma religião cristã restauracionista.
Facilmente perdi a fé, facilmente conclui que tinha sido enganada, que o que me foi ensinado não tinha base bíblica, alguns exemplo disso são as imagens existentes nas igrejas, os templos, o negócio dentro deles e, o pagamento da bula. Se tivesse que seguir uma religião não seria a católica porque, a mesma, é a que faz uma leitura unilateral da bíblia, baseando-se mais no velho testamento, relação entre Deus e o Povo Israelita, esquecendo, por conveniência, parte do novo testamento, escrita após o nascimento de Cristo.
Tenho crenças, todos as temos, convicções baseadas nos poucos conhecimentos adquiridos. Acredito que o Homem nasce bom, que a sociedade o corrompe, Jacques Rousseau defendeu-o, que a conveniência, a vontade de seguir a facilidade, o egoísmo, o poder o corrói transformando-o em vingativo, oportunista, vigarista e interesseiro.
Um dia, numa entrevista um jornalista perguntou a Saramago:
Como podem homens sem Deus serem tão bons?
Saramago respondeu:
Como podem homens com Deus serem tão maus?
Estas questões servem apenas para concluirmos que não é Deus que distribui a bondade, que não é Deus que nos permite respeitar o próximo, as suas ideias, as suas convicções, que não é Deus que nos dá ou tira valor, que não é Deus que nos dá ou tira a capacidade de análise. Com ou sem Deus seremos aquilo que procurarmos ser.

Brown Eyes