O Natal, 25 de Dezembro, data que não corresponde ao nascimento do menino Jesus, provavelmente terá nascido em fins de Setembro, altura da Festa dos Tabernáculos e terá sido concebido em fins de Dezembro. Nesse dia celebrava-se o retorno do sol, o primeiro dia no qual os antigos podiam notar claramente que os dias estavam a tornar-se maiores e, que a luz do sol estava retornando. Como ninguém sabe o dia de nascimento de Jesus e, como a Igreja queria substituir o festival pagão com um dia santo, escolheu esse dia para festejar o nascimento do menino.
Para mim, mulher adulta, com uma posição ateísta, total ausência de crença em divindades, espiritualista, aceitando algumas ideias imateriais como a alma humana ou a reencarnação, o Natal, presentemente, é um aproveitamento das carências afectivas das pessoas, e, não passa disso.
Já foi uma época em que a família se reunia e confraternizava mas, há muitos anos, o seu significado reformou-se. Reformou-se o significado do Natal e o da família.
Tendo o casamento deixado de ser encarado como a modalidade exclusiva de relacionamento, como uma parceria para a vida inteira, sendo questionados, diariamente, os princípios de companheirismo, intimidade e amor, entre os cônjuges, tendo diminuído o contacto entre pais e filhos a um nível extremo, não tendo os jovens directrizes de conduta, estando os seus modelos identificatórios distantes, sendo o individualismo e a competição os espíritos apoiados por esta sociedade capitalista, que acabou com aspectos importantes da vida em sociedade como o companheirismo, solidariedade, participação, envolvimento e união e, ainda, com a família. Família que, hoje, com tantas mutações, deixou de se conhecer, na sua totalidade.
Impossível colocar à mesa, na consoada, aquela família que, há uns anos atrás, se juntava para confraternizar e festejar a alegria do nascimento do menino: os avós morreram, os netos não têm os pais já unidos, os pais têm novos pares e novas famílias, os tios têm outros interesses e, assim, a família perdeu-se.
Reformou-se a família e, com esta remodelação, o Natal perdeu a beleza, a naturalidade, a pureza, a genuidade, tendo sido contaminado pela sociedade de consumo, insatisfeita, a mesma que destruiu a família.
Estando a família desagregada o individuo começa a ser consumido por carências afectivas, carências essas criadas aproveitadas pela sociedade, em que ele se quer inserir.
O indivíduo, transformado em objecto, nu de autonomia, com direitos flexíveis, inserido num meio em constante metamorfose, necessitando estar actualizado a cada segundo, foi perdendo a sua auto-estima estando, vulneravelmente, colocado à superfície de um mundo que, ao mínimo descuido, o abafa, o afunda e o sepulta.
Vulnerável, insatisfeito, sentindo uma necessidade enorme de ser amado e aceite pela sociedade, segue impensadamente as directrizes que lhe são dadas. Perdeu a capacidade de cogitar, de avaliar as suas necessidades, de saber onde começa a mentira e onde acaba a verdade. Afinal ele reina como um soberano solitário.
O mercado, na sociedade capitalista, criou a publicidade que, tem como função, criar necessidades e mais necessidades, impossíveis de satisfazer, já que a mutação é tão veloz que quando se satisfaz uma já há outras criadas. Estas necessidades, grande parte supérfluas, têm como função, aparente, a de provocar satisfação, de preencher o vazio que o indivíduo deixou que ela lhe formasse, criando-lhe a ilusão de auto-estima e felicidade, baseada na “moda”.
Ele segue a “moda” na leitura, nos bens que adquire, nos passatempos que escolhe, nos hobbies, na alimentação, na moradia em que vive, no carro que conduz, no programa que vê, no canal de TV que escolhe, na roupa que veste e, nas prendas que dá. Tudo isto faz dele um FASHION. Um FASHION VICTIMIS, não passa disso. Mata-se a trabalhar, perde momentos no seio da família, perde a saúde, entra em stress para ser um FASHION, para conseguir um bem-estar, momentâneo, baseado em bens.
Esta mesma sociedade trocou-lhe, inclusive, o símbolo do Natal, de menino, passou a velho de barbas, Pai Natal, nascido em 1821, unificação de Pai Natal e S. Nicolau, num conto, para crianças, de Clément Clark e, assim, foi sendo criado este velho. Em 1931, a Coca-Cola dá-lhe o aspecto actual, roubando-nos, definitivamente, a nossa figura natalícia, o menino Jesus.
Esta figura, comercial, tem um impacto económico enorme, nesta época, e têm vindo a ser desenvolvidas técnicas, refinadíssimas, que levam as pessoas a acreditar que é necessário comprar, para consumir ou para presentear, atingindo-as nas suas fraquezas humanas, desestabilizando-as e forçando-as a adquirir objectos que nada acrescentarão ao seu engrandecimento pessoal, social, cultural e muito menos como cidadão participante de uma comunidade, um grupo ou uma sociedade.
O bom senso é, com toda a certeza, a melhor protecção para estas armadilhas do marketing, da publicidade. Ninguém é banido de um grupo, de uma sociedade com valores por não ter, por não dar, por não entrar na roda do consumo. Se o for, é porque aquela sociedade ou grupo era hipócrita, desleal, fingido, fútil e não tinha, como alicerce, do ser humano, os seus valores.
A ideia central, desta sociedade, é vender, não havendo qualquer preocupação nem com a qualidade nem com as consequências que o produto possa ocasionar. Há um esvazionamento de conteúdos e uma utopia de felicidade plena, num “Paraíso de Consumo” qualquer, Shopping Center, onde a estética é procurada a todo o custo.
Estando, eu, atenta às minhas necessidades reais, tendo definido claramente as minhas prioridades, tendo os parâmetros estabelecidos, sabendo o que significa para mim qualidade de vida e o que é supérfluo, o que não agregará valores à minha vida, nem à vida da minha família, tendo a minha meta traçada, sem brechas para que ondas consumistas a destruam digo, com toda a convicção:
Ninguém, nem nada, será capaz de me transformar em máquina de consumir nem, tão pouco, me levará a pensar que a minha felicidade está em ter. A minha vida baseia-se no ser e, é ele, o ser, o único capaz de me fazer feliz. Utopias aceito uma: paz mundial.
Assim sendo, o Natal é, apenas, mais uma maneira de obter lucro, aproveitar as fragilidades do ser humano, presenteando-o com quimeras.
Para Fábrica de Letras.Tema do mês: Natal.
Para Fábrica de Letras.Tema do mês: Natal.
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