sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

O Ninguém e Eu



Um dia, daqueles que queremos negar tudo e todos, resolvi escrever sobre ninguém (uma síntese total deste ser)  e como ninguém. Há alturas que tenho uma vontade férrea de ser igual a ninguém. Esse ninguém que é sempre inocente, esse ninguém que é cego surdo e mudo. Esse ninguém que tanta revolta e tanto ódio cria em mim. Tantas lutas que tenho travado com ninguém e contra ninguém!
"Não sou filho de ninguém e ninguém são meus pais. Ninguém é responsável por mim, eu não sou responsável por ninguém. Não esmago ninguém, ninguém é esmagado por mim. Não espero a ajuda de ninguém e é a ninguém que eu ajudo. Não me lembro de ninguém e ninguém é lembrado por mim. Não vivo para ninguém, ninguém vive para mim. Não governo ninguém, nem ninguém é governado por mim. Não me sacrifico por ninguém e ninguém se sacrifica por mim. Não ouço a recriminação de ninguém e ninguém é recriminado por mim. Não espero nada de ninguém, ninguém espera nada de mim. Não sou apoiado por ninguém e ninguém é apoiado por mim. Ninguém vive para mim nem eu vivo para ninguém. Não sei de ninguém, ninguém sabe de mim. Não trabalho para ninguém e ninguém trabalha para mim. Não vi ninguém e ninguém me viu. Não amo ninguém, ninguém é amado por mim. O meu futuro não é de ninguém e o de ninguém é o meu."
Ninguém assume totalmente ninguém. Assumem, apenas, a parte cómoda dele.
Porque hei-de eu insistir em ser alguém em território de ninguém? Seria tão feliz como ninguém, armada em alguém. 

Brown Eyes

domingo, 1 de Novembro de 2009

O Enredo dos Atalhos


Hoje parece que os atalhos deixaram de ter a definição de cruz. O velho ditado que nos dizia que, “quem se mete em atalhos mete-se em trabalhos”, não tem mais razão de ser. São mesmo os caminhos que nos brindam com dificuldades.
Há uns anos largos, na altura que me locomovia a pé, lembrei-me de ir passar um Domingo à praia. Estava a uns dez quilómetros mas, mesmo sem transportes, pus-me a caminho. O calor insuportável que me cobria o corpo de gotículas de transpiração, estava a destruir-me o desejo. Do meu lado direito, após ter andado uns quilómetros, ou terão sido apenas uns metros, não sei, aparecia o azul do mar, logo ali, a dois passos de mim. Havia um atalho entre a natureza queimada que esboçava um pulo até ao azul aguado. Azul que me envolvia a imaginação. Bem, era um atalho, atalho trabalho, e, a Mary Brown, nunca escolhia a facilidade, hesitou. Hesitava, ao mesmo tempo que se ia embrenhando, a medo, naquele caminho mal marcado. Quando me apercebi o atalho tinha desaparecido, estava rodeada de arbustos, queimados, pintados de negro pelo fogo, que me rasgavam a pele e me encarvoavam. Impossível já voltar atrás. Ao fim de algumas horas, tisnada, com as pernas dilaceradas pelas naifadas daquela lenha mal ardida, cheguei à praia. O azul do mar, depois daquela tormentosa caminhada, tornou-se negro, da cor do equívoco, do engano e da desilusão. Aquela adolescente com aparência fresca, límpida e jovial, passou a aparentar uma mendicante, acabada de fugir do manicómio das redondezas. O carvão cobri-a, escondendo-lhe a cor da pele e da vestimenta.
A partir desse dia nunca, mas nunca mais, quis ouvir falar de atalhos. Os únicos que tenho utilizado são mesmo os que coloco no ambiente do trabalho e os do teclado que, esses sim, são profícuos.
Se já não tinha dúvidas, a sabedoria popular não precisa de canudos nem de certificados para a considerarmos competente, fiquei, a partir daquele dia, com a certeza de que os caminhos, embora mais longos, iludidamente, dão-nos algumas garantias e segurança. Mas, como comecei por dizer, estas certezas, ganhas com a experiência, ao longo de anos e anos, por várias gerações, passaram a ser incertas e dúbias.
Os atalhos nunca nos levarão ao verdadeiro caminho, esta é uma verdade incontestável. Assim sendo, podemos viver uma vida desconhecendo a verdade, se utilizarmos, por sistema, atalhos, fáceis, simples e acessíveis para atingirmos objectivos. Como desculpa, para a sua utilização, acusamos o tempo de ser caro, perder tempo custa dinheiro e os atalhos encurtam-no. O sucesso, a estabilidade financeira, conduzem-nos ao esquecimento da via.
Hoje há quem viva de atalhos: atalhos para a justiça, atalhos nas finanças, atalhos  para a  instrução, atalhos para a educação, atalhos para a saúde, atalhos para a razão, atalhos para a verdade, atalhos para o raciocínio, atalhos para a aquisição, atalhos para a transacção, atalhos para a economia, atalhos, atalhos e mais atalhos. Não vou exemplifica-los, todos os conhecemos. Fazem notícia nos telejornais.
A qualidade da nossa vida futura depende, sem dúvida, do que fizermos hoje. Hoje lançamos os alicerces que nos sustentarão amanhã. Se hoje optamos por atalhos entraremos num labirinto sem fim e, amanhã, ainda andaremos às voltas. A motivação deve ser no sentido de nos demonstrar que vale a pena seguir valores, que vale a pena ser íntegro, que vale a pena ser honesto, que vale a pena trabalhar. Mas não é nesse sentido que nos motivam. Por interesses políticos, distribuem-nos falsas facilidades (por exemplo  os subsídios e as novas oportunidades) que, mais tarde, aferimos apenas terem servido para tapar o sol com a peneira.
Aqueles que ainda resistem aos atalhos sentem-se defraudados, roubados, desanimados, desiludidos e derrotados.
Ter um carácter longânime, de alguém que suporta as adversidades, que prossegue o seu caminho empenhando-se, apesar dos obstáculos, que continua a trabalhar arduamente, proporcionará algum benefício? Quando vemos o trapaceiro, o malandro, o mandrião, o indolente, o parasita, o inútil, a medrar impunemente, a ser aplaudido energicamente, a ser reconhecido publicamente? 
Sociedades que espezinham os valores, aplaudem a imperfeição, a incorrecção e as irregularidades, terão um final feliz? As regras têm vindo a multiplicarem-se mas, também, se têm multiplicado as evasões. Qual poderá ser o objectivo do seu surgimento se, no fim de contas, não se é responsabilizado por não as cumprirmos e, até se é premiado? Se são aqueles que esperamos que nos dêem o exemplo, os primeiros a fugir às obrigações?
Onde estará afinal a virtude? Nos atalhos ou nos caminhos?
Brown Eyes

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Saramago e as Pedras


Todo o ser humano tem liberdade de opinião e de expressão, art.º. 19º. da declaração universal dos direitos do Homem, assim sendo, todos temos direito a não sermos incomodados nem difamados por usufruirmos dele.
Saramago, escritor, autodidacta, recebeu o prémio Camões e o prémio Nobel da literatura, único português a recebe-lo, grande pensador, alguém com uma visão própria do que o rodeia, da realidade que o envolve, que não se restringe a reproduzir, criando, alguém “que se limita a levantar uma pedra e a pôr à vista o que está por baixo, não tendo culpa se, de vez em quando lhe saem monstros”, como ele próprio refere, tem direito à sua opinião e a exprimi-la, como qualquer simples mortal. Ninguém tem dúvidas acerca da existência de monstros, todos sabemos que estes habitam nas catacumbas, lugar onde nem sempre estamos dispostos a descer.
Não posso emitir opiniões negativas sobre alguém porque tenho, na prateleira, lá de casa, uns livros dele, que nunca li mas, dos quais, não gosto da encadernação, sobre os quais alguém resolveu afirmar que são improfícuos. No entanto, os seus livros, são facilmente vendáveis.
Não posso emitir opiniões negativas sobre alguém só porque é octogenário, porque cria polémica, mexe com as mentes, critica o sistema democrático, que ninguém discute, porque afirma que temos um cérebro demasiado disciplinado, que pensa só o que é preciso pensar e que nos permitem pensar, que nos diz que se não conseguirmos viver inteiramente como pessoas, pelo menos, que não vivamos inteiramente como animais. Alguém que lembra que as palavras com facilidade mudam de opinião, como as pessoas, que a morte mata muito menos que o Homem, que se contam muitas histórias sobre Deus e a morte e, que, o sonho é tão real como o corpo que o sonha.
Não posso emitir opiniões negativas sobre alguém quando não sei, sequer, analisar se há veracidade nas suas afirmações. Quem já se preocupou em ler a Bíblia? Quem já se preocupou em analisar o poder e o império do Vaticano? Como pode então alguém duvidar que a verdade seja ofendida, todos os dias, por supostos representantes de Deus? Quem pode então duvidar que eles só tenham interesse no poder, não na salvação da nossa alma e sim no controle do nosso corpo? Como posso eu duvidar que Deus continue a descansar se permite que, em seu nome, se gastem milhões na construção de templos, qualquer lugar serve para se orar, enquanto morrem milhares de crianças? Como se pode duvidar que a bíblia seja um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana se nunca o lemos? Como se pode então duvidar de quem a lê perde a fé? Como se pode então acreditar que a verdade está naquele que diz, o teólogo, que a leitura de Saramago é ingénua, ideológica e manipuladora?
O conhecimento não é estanque, nem a verdade é inquestionável. Todo aquele que disser algo e conseguir prova-lo nunca poderá ser dado como louco. Lembrem-se de Galileu que defendeu o heliocentrismo numa época em que se acreditava no geocentrismo, cegamente.
Saramago é um vigilante que encontrou na palavra a arma, para lutar contra a injustiça, ignorância e poder. Alguém que procura a verdade através da análise, da observação da experiência vivida, modificando o conhecimento manipulado à nascença.
Já fui católica praticante. Andei algum tempo levada pela multidão até que um dia…um dia parei para pensar. Afinal que me adiantava pertencer a uma religião que eu reconhecia envolta em pecado, em egoísmo e em mentira?
Não querendo de maneira nenhuma encontrar uma verdade facilmente abalável, dediquei-me à leitura da bíblia. Li a bíblia utilizada pela religião católica, pelos testemunhas de Jeová e o Livro do Mórmon, uma das quatro obras padrão da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, igreja Mórmon, uma religião cristã restauracionista.
Facilmente perdi a fé, facilmente conclui que tinha sido enganada, que o que me foi ensinado não tinha base bíblica, alguns exemplo disso são as imagens existentes nas igrejas, os templos, o negócio dentro deles e, o pagamento da bula. Se tivesse que seguir uma religião não seria a católica porque, a mesma, é a que faz uma leitura unilateral da bíblia, baseando-se mais no velho testamento, relação entre Deus e o Povo Israelita, esquecendo, por conveniência, parte do novo testamento, escrita após o nascimento de Cristo.
Tenho crenças, todos as temos, convicções baseadas nos poucos conhecimentos adquiridos. Acredito que o Homem nasce bom, que a sociedade o corrompe, Jacques Rousseau defendeu-o, que a conveniência, a vontade de seguir a facilidade, o egoísmo, o poder o corrói transformando-o em vingativo, oportunista, vigarista e interesseiro.
Um dia, numa entrevista um jornalista perguntou a Saramago:
Como podem homens sem Deus serem tão bons?
Saramago respondeu:
Como podem homens com Deus serem tão maus?
Estas questões servem apenas para concluirmos que não é Deus que distribui a bondade, que não é Deus que nos permite respeitar o próximo, as suas ideias, as suas convicções, que não é Deus que nos dá ou tira valor, que não é Deus que nos dá ou tira a capacidade de análise. Com ou sem Deus seremos aquilo que procurarmos ser.

Brown Eyes


sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Grande Alma


मोहनदास करमचन्‍द गान्‍धी

Mahatma Gandhi,nasceu no dia dois de Outubro de 1869, há cento e quarenta anos, quer pela sua filosofia, quer pela sua busca constante de auto-conhecimento, auto-controle, pela luta que travou, com acções no princípio do Satyagraha (firmeza na verdade), não utilizando nunca a força bruta, por um mundo mais justo, solidário e pacifico, conseguiu mobilizar multidões e mobilizar-me, desde tenra idade, pelas mãos da sua obra autobiográfica “Minha vida e minhas experiências com a verdade”.
Foi através da sua obra que Ele se tornou um educador, um mestre, para mim. Como todos os discípulos não segui à risca os seus ensinamentos.
Não conseguiria ser espancada e recusar-me a processar quem o fez mas, tal como Ele, também penso que o dever do advogado é descobrir a verdade, não tentar provar que o culpado é inocente.
Não conseguiria isentar o pecador, atacar o pecado e o sistema injusto.Segue-se o pecado e o sistema por opção, o que torna o pecador transgressor. Para ele, ferir ou atacar alguém era atacar-se a si próprio. Não equiparo o meu ser ao ser de qualquer um.
Não conseguiria perdoar, o ornamento do valente, segundo Ele. O que indica que não consegui adquirir a sua valentia. Admito que o perdão seja mais nobre que a punição. Não perdoo mas, também, não puno.
Não conseguiria amar quem me odeia, só assim haveria não-violência. Procurei o fácil, não pretendi, nunca, amar quem me odeia. Mas segui a não-violência, ignorando quem me dirige ódio.
Não conseguiria dirigir a minha vida sem lógica. A vida é lógica, apesar de envolver alguma violência, posso e devo escolher o caminho da violência menor, que Ele pensava não nos competir.
Não conseguiria ver os meus erros com uma lupa e o dos outros com uns óculos. São, todos, vistos com uma lupa, procurando, sempre, descobrir a sua causa. A igualdade deve ser aplicada na sua totalidade. 
Não conseguiria oferecer a lâmina do amor para quem investiu uma espada para mim. Não acredito, como Ele, na reencarnação, vivo esta como se fosse a minha primeira e última vida. Não espero, numa outra vida, cingir toda a humanidade num fraternal abraço. Ou é nesta ou nunca será.
Não conseguiria vencer o adversário com amor, não tenho adversários, ninguém tem nada que inveje. Há pessoas e há entes. As pessoas merecem o nosso amor, os entes o nosso desprezo.
Não conseguiria orar. Para mim a respiração da alma está no pensamento e na análise, nunca na oração. A minha paz vêem-me da consciência, nasceu em mim e foi cultivada por mim.
Não conseguiria vencer o medo da morte porque, nunca o tive.Tenho medo ao sofrimento, Ele não.
Acredito que a força da alma e do amor, a mais abstracta e potente do mundo,têm o poder de manter a unidade das pessoas em paz e harmonia.
Acredito que devemos ajudar os economicamente oprimidos, os necessitados e as crianças carentes mas não sei se conseguiria jejuar por eles.
Acredito que a igualdade, o não uso de álcool ou droga, a unidade, a amizade, e a igualdade para as mulheres são os cinco pontos essências para a paz.
Acredito, ainda, que o amor e a verdade estão unidos entre si e são impossíveis de separar.
Acredito que controlando a gula conseguimos o controle de todos os sentidos, conseguimos, ainda, saúde e felicidade.
Acredito que a civilização, acto de polir, de progredir social e intelectualmente,  consiste na vontade espontânea de limitação das necessidades, que nos conduz à felicidade, à satisfação e capacidade de servir.
Acredito que é injusto e imoral, fugir às consequências dos próprios actos.
Acredito que seja imprescindível controlar a ira, só assim se consegue mover o mundo. Controlo-a esperando que o tempo reponha a verdade. O que acontece.
Acredito no silêncio como necessidade física e espiritual que me transporta para a meditação. Impossível meditar, lucidamente, entre a multidão, procuro, para tal, estar só.
Acredito no autocontrole, na concentração, no querer, na insistência, na busca da verdade. Crenças que me levam a acreditar no amanhã e a não teme-lo.
Acredito que não consigo ser tão modesta ao ponto de pôr todos os comodismos de parte, partir para a luta, sacrificando-me, em defesa dos inocentes, de chinelos e de tanga, como Ele fez. 
Gandhi foi assassinado por um hindu enfurecido, a 30 de Janeiro de 1948, com 78 anos. Ele tinha dito: Não desejo morrer pela paralisia progressiva das minhas faculdades como um homem vencido. A bala de um assassino poderia pôr fim à minha vida. Acolhe-la-ia com alegria.
Não foi um homem vencido, nem na morte. Foi um vencedor.
Esta Grande Alma deu-me, na vida, conhecimento, apoio e certezas.


Brown Eyes




quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Certezas do tempo



Olhando o passado encontro-te a meu lado, sorrindo, esperando-me a cada canto da vida, petiz, roliço, cabelo ao vento, olhos oblíquos, negros, sentado sobre a segurança.

Olhando o presente procuro-te entre a multidão, esperando-te a cada minuto passado, adolescente, cabelo negro, comprido, rosto marcado pela rebeldia, sentado sobre a dúvida.

Olhando o futuro concebo-te presente nos segundos de uma vida, envelhecida pela responsabilidade, esperando-te mortificadamente, curvo, cabelo prateado, raro, rosto marcado pela vida, pálpebras enrugadas sobre uns olhos obliquamente risonhos, sentado sobre a história de uma vida.

Brown Eyes

"Certezas no tempo" publicado com o título "Onde Estás?"

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Por um Acaso...





Hoje é dia de aniversário, aniversário deste cantinho, onde estão presentes as minhas qualidades e defeitos, o meu pequenino e modesto mundo.
Com estas reflexões, primárias, tive oportunidade de conhecer pessoas que me cunharam. Que me cunharam pelas suas capacidades de comunicação, de linguagem, de raciocínio, de introspecção, de pugna, pela sua sensibilidade, firmeza, segurança, simplicidade, franqueza, sinceridade, pelo seu carácter, pelas suas capacidades humanas e humanitárias. Elas contribuíram para ampliar a minha quimera, os meus devaneios, os meus conhecimentos, informaram-me, mimaram-se, apoiaram-me e respeitaram-me. São elas as heroínas neste dia, a quem tenho que agradecer a cooperação e presença.
A ti, que hoje também fazes anos,que me desvendaste a beleza da vida, que me transmitiste esta paz que tanto ansiava, que ordenaste a minha existência, fica um obrigado, um agradecimento eterno.

Brown Eyes


domingo, 27 de Setembro de 2009

A Perspectiva da Existência


Petiz, desarmada, imaginava que quando fosse “grande” o horizonte se tornaria límpido, que poderia ver com nitidez o que ficava para lá da linha. À medida que os anos passaram a linha foi-se distanciado. Sentei-me muitas vezes a tentar perceber o porquê, mas a vida continuava a decorrer e, eu, obrigava-me a erguer-me. Vezes sem conta fiz a mala e parti, outras tantas modifiquei o percurso. Em vão. A vida que imaginei atrás da linha parecia um capricho, um capricho para alguém que tão concretamente aspirava conquistas.
Sei que se fosse dúctil há muito tinha chegado, não se teme quem nada quer, não se atraiçoa quem julgamos débil mas apunhala-se, pelas costas, quem imaginamos infrangível.
Incorrigivelmente fui caminhando, lacerada, despedaçada, sangrando por te teres sumido. Não seria por ti que eu rebentaria num báratro. Quantas vezes mo gritaste mas, aquilo que ainda restava de mim, erguia-me assombradamente.
Monstruoso era o sentimento que imanava de ti, alguém afável, terno, compassivo, torna-se no oposto, venador, aguardando a derrocada final.
Tinha-te traçado, fundado e erguido, durante anos não houve encanamento ou ligação que se mostrasse imperfeita. Depois, depois devo ter adormecido. Acordei longe, esfarrapada, esbandalhada, no entanto, estava lá, ainda, o filamento que me ligava ao solo. Recebia imensas descargas que, em vez de me calcinarem, revigoraram-me.
A existência é feita de imprevistos, o planeamento não prevê fortes vendavais, tempestades, nem inundações anormais, aliás quem consegue prever o extranatural?
Esqueci-me dos malditos duendes, erro imperdoável. As travessuras que eles pintaram naquela obra! A obra da minha vida.   
Hoje, continuo a transitar pela vida, com perspectiva na existência, devaneando contigo, conduzida por uma divindade, sem perder a direcção.

Brown Eyes

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Perdida e Achada


Ela, Licenciada em Economia, desloca-se num Mercedes Classe A “Special Edition”, vai às compras a Paris, Londres e Milão, passa férias no Dubai mas, por incrível que pareça, não perde um mexerico. É vê-la deambulando pela internet à procura do Big Brother, brasileiro, alemão ou francês, pouco importa. Perde horas a observar a vida alheia, mais atenta do que se da dela se trata-se. E os blogs? Como ela gosta dos triviais, daqueles que falam da vida privada, tal e qual ela é, os de moda, os que apresentam o último grito em roupa, pintura ou calçado, que interessa? Têm é que falar das banalidades do dia a dia, de bisbilhotices, das quezílias entre marido e mulher, pais e filhos, entre vizinhos ou, até, do novo namorado. Assim, a Maria, vai entulhando a insatisfação que lhe destrói as entranhas, a insatisfação de viver no mundo que foi eleito para si, eleito para si mas não por si.
A vida pouco a tem compensado, uma vida de submissão à vontade do pai, que sempre a sonhou doutora, que a casou com o Joaquim lá da terra, filho do Manuel dos Autocarros, que a trocou pela filha da Cigana das Louças, após seis longos anos à espera de um descendente.  Maria, a menina perfeitamente perdida.
Sempre que se senta no cadeirão para meditar toca o telefone. Maldito fado. Não a deixam pensar, organizar e delinear a sua vida, torna-la em algo útil, frutuoso, algo que amanhã possa recordar sem amarguras. Lá vai a Maria pagar mais um copo aos amigos que foi conhecendo nos dias que já percorreu.
A Maria teme o futuro, teme perder o capital, única coisa que o pai lhe deixou aquando da sua viagem eterna. Que seria dela sem dinheiro? Nada. Ela sabe que nada. Sempre foi uma dependente  e, hoje, a sua falsa felicidade depende do dinheiro. Esse que sempre lhe deu tudo, menos a alegria de viver. Esse que faltou ao primo e o colocou a deambular pelas avenidas da grande cidade, onde todos o vêem mas ninguém o ampara. Mas o João ainda tinha um amigo, o Nero. Aquele que sempre o acompanhou, tivesse ou não que comer, tivesse ou não um tostão. O Nero estava sempre a seu lado, nunca o abandonou. Mas a Maria se perdesse o capital ficava sozinha, sem ninguém. Sem ninguém que a quisesse ouvir, que a aquecesse nas noites frias.
Nada é impossível e a gastar como o tem feito….Maria estava perdida, perdida para ser amada, perdida para se deixar amar, perdida para amar. Perdida por viver.
Vomitava banalidades, vomitava futilidade mas, nunca é tarde. Procuraria o João, dar-lhe-ia um tecto, uma esperança, uma oportunidade para realizar sonhos. Juntos ergueriam castelos, os que eles tinham desenhado.

Assim nasceu “ Perdidos no Paraíso “, onde as criancinhas do distrito, pobres e desventuradas,  descobriam o amor pela vida.

Brown Eyes




quarta-feira, 9 de Setembro de 2009

Onde está Ronaldo?



Não tem muita fama, é simples, não tem na retaguarda uma máquina publicitária, não desloca multidões,  não se conhecem dele histórias com Paris Hilton, nem outra qualquer menina rica, não se sabe se tem conta no BES, mas foi ELE que permitiu que Portugal se mantenha na luta pelo apuramento  para o Mundial 2010. Bem, há muito que eu duvido de todo o produto com muita publicidade mas, agora,....Os Espanhóis começam já a pensar como eu.

Brown Eyes

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Quem me dera ter vinte anos




Quantas vezes já ouvimos esta frase? Não são dezoito, vinte e dois ou vinte e quatro, são vinte anos. Porquê vinte anos? Porquê voltar atrás? Será que o presente não cativa o suficiente para querermos permanecer por aqui?
Quantas vezes pensei nesta frase e quantas vezes conclui: Não quero voltar atrás. Estou mais velha, é certo, como também é certo que a saúde não é a mesma, assim como não é menos certo que não consigo mais passar pela noite a ver um filme ou até a ler mas não quero, mesmo assim, voltar atrás. Perdi juventude, é certo, mas ganhei tanta coisa. Ganhei experiência. Hoje é difícil que algo me tire o sono, caio na cama como uma pedra. Ganhei paz. Antigamente revoltava-me um simples mexerico, afinal se eu não falava de ninguém porque teimavam em falar de mim, era o suficiente para não dormir. Ninguém para mim era o suficientemente importante para que eu, nas costas dela, cobardemente, andasse com ditos e mexericos. Porque elas, são elas normalmente que mexem e remexem, não agiam como eu? 
Ai hoje, hoje não têm sequer o descaramento de me dizerem o que se diz, de mim ou de qualquer outra pessoa. Armei-me de tal forma que tudo que é ruim é destruído a duzentos metros. Não chega cá nada. Nada mesmo. Sempre fui selectiva, nunca me deixei acompanhar por qualquer pessoa, mas, ao longo dos anos, fui aprofundando essa qualidade. Por mais que analisemos as pessoas há sempre alguém que acaba por nos enganar e, por consequência, de trazer-nos problemas. Eles surgem muitas vezes por facilitarmos, por julgarmos os outros por nós, os outros não são como nós, ai não são mesmo. Há caloteiros, ladrões, assassinos, psicopatas, mentirosos, …. Então, se assim é, porque irei eu julgar os outros por mim? Pois é não julgo, julgo-os mesmo por eles próprios e atribuo-lhes os defeitos e qualidades que eles têm.
Que me interessa a mim a história da fulana que deixou o marido e anda com o vizinho? Nada. Se não interessa, nunca interessou, para que hei-de ouvi-la? Por simpatia? Ai não ouço mesmo. Nunca fui complexada nem ao ponto de achar que sou melhor, nem ao ponto de achar que sou pior, por corolário, não me interessa, não me faz feliz desacreditar ninguém. Depois aprendi com o ditado “Nunca digas desta água não beberei” que, não sei o que poderei amanhã ser capaz de fazer. Sendo assim, não sabendo o meu dia de amanhã, como posso eu criticar alguém? Amanhã se bater com a cabeça nas paredes quero ser motivo de boato? Se não, porque os alastro eu hoje?
Esta tem sido a minha máxima ao longo da vida, máxima aprofundada com a idade. Há ainda outra, ser optimista. Quantas vezes na minha vida passei noites sem dormir porque tinha um problema, que me parecia a mim, insolúvel. Por mais voltas que desse não havia solução para aquilo. Desta vez tinha-se acabado, eu não iria conseguir resolver aquela dificuldade. Ai meu Deus que seria de mim? E, noite após noite, eu ia ficando cada vez mais esgotada e, claro, cada vez tinha menos capacidade para discorrer e, em consequência, o problema, que afinal não era tão volumoso como isso, ia-se avultando. Quanto mais me preocupava mais se agigantava. Perdia a confiança em mim, completamente. Deixava de sorrir, de comer, afundava. Mas, chegava sempre um dia, um bendito dia, que se fazia luz. Eu, aqui a Mary Brown, já no fundo do poço, como por magia, recuperava a confiança em mim e via um clarão que se aproximava velozmente. Estava ali a resposta, a solução de tantas noites mal dormidas.
Hoje, são muitos anos de história, anos que me deram experiência, que me ensinaram que nunca devo perder a confiança em mim. É ela que me dá força para derrubar todos os muros, para não deixar que se amontoem pedregulhos na estrada da minha vida. As noites mal dormidas há muito que acabaram, hoje não demoro cinco minutos a fechar os olhos, haja o que houver sei que o amanhã resolverá, se me mantiver serena. É serena que espero o dia seguinte porque aprendi que só não há solução para a morte, que o que hoje nos parece um abismo pode amanhã parecer-nos uma montanha coberta de flores.
Não quero voltar aos vinte anos. Eles podiam-me dar juventude mas não me dariam esta paz que hoje sinto, esta maturidade que cultivei. Que é mais importante? A paz sem dúvida. A certeza de sabermos quem somos, a certeza de sabermos o que queremos, a certeza de sabermos quem queremos, a certeza de sabermos para onde queremos ir, a certeza de sabermos o que nos faz feliz.
Porque será que querem voltar aos vinte e não aos dezoito ou vinte e dois? Talvez porque, há uns anos atrás só se saia de casa aos dezoito, quando se adquiria a maior idade, e aos vinte já se teria, em princípio, uma estabilidade financeira. Será? Não sei. Só sei que eu, pessoalmente, não quero negar um passado que tanta importância teve para mim, um passado que me ajudou a ler o presente, um passado que fez de mim o que sou, um passado que me deu a estabilidade que hoje tenho, um passado do qual, apesar de ter cometido muitos erros, me orgulho. Estar a nega-lo seria o mesmo que estar a negar-me e fui eu que consegui a felicidade que hoje sinto. Amanhã? Como será o amanhã? Quando lá chegar saberei. Até lá vou viver o presente.

Brown Eyes