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Mensagens

Vidas

Há vidas tão parecidas, quantas vezes me fizeste lembrar a minha! Só, mas não perdido, vivi esperando ser amado, admirado, confiando encontrar os meus procriadores, que tive anos a meu lado, sem os sentir. Quando a desigualdade, no trato da criação, é tão notória a dúvida invade-nos. Será que, apesar de ter brotado da mesma árvore, aparentemente, houve enxerto? Porque será que, só para mim, eras sombria? Para o outro lado reflectias a luz. Tinha as raízes bem fundas, daí ter conseguido, sempre, manter-me erguido apesar das machadadas penetrantes. Com alguma dificuldade, confesso, consegui ir arrancando o machado. As cicatrizes perduram, ténues mas subsistem.
Quantas vezes me deparei num cruzamento, sem saber qual a via que me levaria à posteridade idealizada? Como se não bastasse ainda me embutias o abismo, não me deixavas pensar com aquele burburinho ensurdecedoramente crítico. Parece até que te doía veres-me singrar. Devaneava pensando que sendo um ramo teu te orgulhavas de mim, da…

Mãe

Mãe onde estás?
Que saudades tenho tuas, do teu colinho, do teu miminho.
Lembro-me dos quilometros que percorrias, do dinheiro que gastavas para me ver. Lembro-me que eras capaz de comer batata com batata para poderes ter dinheiro para me ligares, para me vires ver e para me comprares um miminho semanal. Mesmo longe sentia o teu amor constante, lembro-me da solidão em que vivias mas, mesmo só, não te esquecias de mim. Lembro-me de que nunca te deram o valor que tinhas, nunca te compreenderam mas tu continuavas a lutar por mim.
Porque será que eles te odiavam? Porque não tinham a tua força? Eu compreendo porque me deixaste lá, lá, apesar de tudo, eu vivia em melhores condições, tu vivias naquele quarto minúsculo sem nada. Mas tinhas o meu amor. Esse sempre tiveste. Sei que era esse Amor que te dava força, aquela força que te levava a levantar sempre que te derrubavam. Lembraste das bofetadas que te deram? Logo eles, logo quem nada fez por ti. Avisei-te tantas vezes: Mãe pensa em ti, nã…

Herança

Meditando sobre ela atingiu-me a dúvida sobre a origem da sua vida exterior, da sua ascendência. Um dia, após análise ponderadamente exaustiva, não encontrou um elo de ligação hereditário com os seus antepassados. Nenhuma influência, nenhuma comparação, nenhuma herança material ou espiritual. A sua alma meditava reflectidamente no ser, na vida, no objectivo da existência. A deles, perdia-se constantemente, na aparência do poder e do ter.
Para Ela o querer era poder e ela queria, queria mostrar a possibilidade de conseguir querendo, queria que o seu "EU" brilhasse com luz própria.
Para eles o poder estava nos outros a quem deviam obedecer sem vontade, sem opinião, com sujeição e submissão tendo, somente, como objectivo o aspecto exterior do ser.
O antagonismo, entre eles, crescia à medida que ela se tornava mulher. Não queria viver presa a ideias preconcebidas, tinha uma enorme sede de liberdade de pensamento. Não aprendeu a pensar como eles, em ajuntamento. O pensamento é exc…

Ela

Ondulava, deambulante entre a multidão silenciosa, captando debilidades alheias, com um ar humilde e piedoso. Era a amiga, posicionada na primeira fila, disposta a ver, ouvir e ajudar. Defeitos? Talvez a neurose. Sempre ao dispôr com aquele sorriso contangiante. Esperava o momento certo. Pacientemente aguardava a sua vez para trincar quem escorregasse, com aquela pureza estampada no rosto. Esse era o seu poder, único, a virtude que a destacava. Não tinha mais nenhuma. Só nunca nada conseguira, mas conseguia calcular como, quando e onde atacar e...de um salto, envenenava a vítima que caía prostrada a seus pés. Lentamente rastejava pelo capim, acumulando poder.Escondia as vítimas e roubava-lhes a imagem. Era aquela que sabia, únicamente, serpentear, matar, devorar, exibindo um ar angelical. Um dia reflectiu-se e derrubou-se. A divida foi cobrada.

Brown Eyes